Gestão de Energia / Eficiência Energética

Vai demorar?

A importância do tema “Energia” já foi reconhecida na agenda do Desenvolvimento Sustentável, mas foram necessárias duas décadas após a Agenda 21 para que a universalização do acesso à energia fosse finalmente definida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das metas a serem cumpridas por todos os países-membros até 2030. Entre os 17 Objetivos Do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que começaram a ser elaborados após a Conferência Rio+20 e foram apresentados pelo secretário-geral da ONU em fevereiro deste ano, um ressalta como direito incontestável o acesso à energia barata, confiável, sustentável e moderna para todos. Isto significa aliviar a escuridão de mais de 1,1 bilhão de pessoas, o que demandaria um investimento de 1 trilhão de dólares, de acordo com o Banco Mundial. O Brasil (e também alguns países sul-americanos) corre o risco de ficar de fora dessa discussão porque, como temos uma matriz energética majoritariamente limpa, ela aparentemente não nos diz respeito.

Mas será mesmo que esse assunto não nos diz respeito?  O continente sul-americano se vê ameaçado pelas intempéries ao mesmo tempo em que se coloca entre os grandes emissores mundiais, já que a região concentra a segunda maior reserva de petróleo no mundo, logo atrás do Oriente Médio, de acordo com dados publicados pela OLADE – Organização Latino-Americana de Energia.

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Do badalado litoral de São Paulo às rústicas Ilhas Galápagos no Equador, a indisponibilidade da rede elétrica convencional é resolvida com ajuda de óleo diesel e gasolina. A vida nessas áreas e em muitas comunidades sul-americanas se organiza de acordo com a disponibilidade de luz do sol, pois é nesse período que as famílias trabalham e produzem seu sustento. Nos locais isolados, um poderoso gerador de 30 kVA é ligado para mover não mais que 15 lâmpadas incandescentes e quatro televisores nada eficientes em cerca de 20 casas por quatro horas. São gastos cerca de 30 litros de diesel por noite, sendo que apenas 15% da energia produzida por esses geradores é de fato utilizada. O restante é desperdiçado por irregularidades na instalação ou falhas de dimensionamento. Em média, o custo por família vivendo nessas condições na América do Sul gira em torno de 30 dólares americanos. Não se coloca nessa conta o prejuízo econômico, já que muito do que é produzido localmente se perde por falta de refrigeração, ou as consequências da fumaça produzida por motores antigos e lamparinas a querosene.

No último mês de maio, na cidade na Nova York, a iniciativa Sustainable Energy For All – SE4All, cujo maior feito foi conseguir incluir a questão entre os ODS, ficou claro que a redução de 4,3 para 1,1 bilhão de pessoas sem acesso à energia na última década foi possível devido a investimentos do Estado ou a parcerias público-privadas na criação de modelos de negócios realmente inclusivos. Na África e na Ásia, o negócio tornou-se atrativo para startups e PMEs, que ajudam a acelerar a mudança. Na América Latina existem poucos modelos conhecidos e o protecionismo à indústria nacional ainda emperra a entrada de investimentos estrangeiros. Um exemplo interessante vem da Costa Rica, que, na década de 1980, começou a subsidiar a expansão da rede elétrica convencional e tornou públicas as informações sobre quais localidades receberiam energia elétrica e quando isso deveria acontecer. O próximo passo foi autorizar cooperativas locais a prestarem o serviço de manutenção da rede e a cobrar por isso. O resultado foi que, em 2005, a Costa Rica já havia alcançado o inédito índice de 100% de domicílios com acesso à energia.

Desde a sua criação em 1950, esta é a primeira vez que a ONU se aproxima do setor privado para buscar um modelo assertivo que reúna políticas públicas para acelerar modelos de negócios com potencial para mitigar o problema da falta de energia para todos. O movimento entre os países-membros é de aceitação de que a resolução do problema da falta de energia limpa e confiável passa pelo desenvolvimento de um novo mercado, uma nova atividade econômica. O paradoxo é que, se em alguns aspectos o tema anda rápido, em outros parece se mover tão lentamente quanto na percepção de uma criança ansiosa por chegar ao seu destino. Nesse caso, somos ainda crianças latino-americanas que perguntam: “Vai demorar?”

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